A Graça VEIO à Marcenaria


Graça Horta


A resposta a um anúncio de um jornal, rendeu-lhe, uma vida inteira uma carreira feliz na área da Conservação e Restauro.

Correu o país e conheceu sítios que a maior parte das pessoas não conhece e só passa de carro.

De voz animada e bem disposta, recorda os anos de trabalho com a certeza de que, apesar do amor à pintura mural, o que fica de importante são as pessoas, as histórias e as recordações, daquilo que viveu enquanto trabalhava.

Porque somos amantes de restauro, e queremos dar voz às artes decorativas, convidamos hoje Graça Horta, para nos guiar neste passeio.


Como começou este amor pelo restauro? Fale-nos um pouco do seu percurso profissional.

Comecei a trabalhar, aos 20 anos. Em 1981 estava a trabalhar no Instituto de Linguística da Universidade de Lisboa quando vi um anúncio num jornal para o primeiro curso de Conservação e Restauro em Portugal, que viria a ser leccionado no Instituto José de Figueiredo e cujo objectivo era reforçar os quadros da instituição.

Achei o texto do anúncio muito desafiante e candidatei-me. Foi um curso patrocinado por várias entidades públicas e o “José de Figueiredo” era a nossa casa-mãe.

Fiquei lá a trabalhar e escolhi a especialidade de Pintura Mural, como era designada, mas o nome é redutor, porque esta área englobou esgrafitos, manutenção de rebocos antigos, certas intervenções nos estuques relevados, etc.



Quais as melhores memórias que guarda desses tempos?

Foram tempos muito bons porque não foi só do trabalho que eu gostei muito; corri o país de Norte a Sul e conheci sítios pequeninos de Portugal, que se não fosse assim, provavelmente nunca teria conhecido e tive oportunidade de conviver com as pessoas, de “sentir” os locais.

Uma Universidade da vida!

Corri o país de norte a sul e conheci sítios pequeninos do nosso Portugal que, de outra forma e se não fosse a trabalhar, só teria passado de carro.


Algum projeto de restauro que a tenha marcado de forma especial?

Em 2008, o Prof. Lamas, que era o presidente da Parques de Sintra - Monte da Lua pediu a intervenção do Instituto, para companhar a obra de conservação e restauro do Chalet da Condessa de D’Edla, no que dizia respeito à sua vertente decorativa.

O Chalet tinha ardido no final da década de 80 mas felizmente era recuperável, quer na estrutura, quer na variada decoração mural, que não tinha sido atingida pelo negro de fumo.


Anos antes, o Prof. Lamas tinha tido oportunidade de fazer um levantamento fotográfico exaustivo de todos os espaços do Chalet – isto antes do incêndio - e isso foi determinante na recuperação das pinturas e estuques.

Foi esse o último trabalho que tive, no Estado, antes de me reformar; um trabalho que acompanhei do princípio ao fim, onde aprendi imenso, quer com os profissionais da construção civil, quer com o arquitecto responsável pela obra, José Maria Lobo de Carvalho, com quem trabalhei.

Foi a “cereja no topo do bolo”.


Que pormenores guarda desse restauro?

São tantos que ficávamos aqui muitas horas! Precisamente porque estes trabalhos exigem uma grande atenção aos pormenores e aos seus significados


O levantamento arquitectónico, feito ao detalhe pelo arquitecto com uma pequena equipa de colegas, foi uma descoberta constante para mim, a que tive a sorte de assistir.


Pensando na madeira como factor decorativo é de referir que as paredes de duas salas do Chalet, a casa de jantar e o quarto do rei, no piso superior, foram revestidas de painéis decorativos de madeira e cortiça.

Estes painéis são surpreendentemente simples: um entrançado de ripas de madeira, pintadas com uma linha vermelha e outra verde e nos intervalos da madeira foi inserida cortiça.

Apenas um painel foi encontrado, no exterior, e graças a ele foi possível reconstituir esta decoração.


Ainda na casa de jantar, encontrámos sobre o reboco da parede um desenho, um esboço em tamanho natural, do que viria a ser a pintura do tecto, que os pintores decorativos fizeram -um hábito comum destes profissionais de utilizar as paredes para desenhos, cálculos e, aqui, um magnífico desenho a carvão.


Um dos trabalhos mais interessantes que aqui realizei com uma outra colega a arquitecta Célia Morais, foi o destaque do fasquiado com as argamassas decorativas, do tabuado em que tinham sido pregado, de modo a poder reintegrar as pinturas nos seus espaços primitivos, visto que as paredes tinham tombado. A operação envolveu uns pés de cabra….



Quais são os maiores desafios de restaurar?

A profissão é de Conservador-Restaurador, e o essencial, é a conservação.

O restauro é mínimo e temos de saber onde parar, porque não podemos deixar na obra a “nossa mão”, em conjunto com a do artista que a produziu.

Pelo menos nesta escola de restauro do sul da Europa, o que se pretende é estabilizar a obra, para impedir a continuação da degradação e permitir uma leitura do conjunto, minimizando o “ruído”.

Exemplificando: uma lacuna não é refeita; apenas será dado um tom de fundo que permitirá ler o conjunto sem a perturbação da visão esbranquiçada das novas argamassas.



Como vê a profissão de conservador restaurador em Portugal?

É difícil sobreviver, porque há muitos profissionais.

O problema essencial é que o património, como é natural, está sobretudo, afecto ao Estado e à Igreja, e é preciso que o Estado ou a Igreja tenham recursos para o conservar.

E a Cultura é o parente pobre do Orçamento de Estado…



Acha que os portugueses, no geral, cuidam bem do património?

Os portugueses, sobretudo nos locais fora das grandes cidades, têm respeito pelo seu património e defendem-no muitas vezes; não têm é a sabedoria e os meios para o conservar devidamente, o que causa a sua degradação e por vezes intervenções desastrosas. As pessoas das aldeias, e dos sítios mais pequenos do país têm muito apreço pelas “coisas” que são da terra e muitas vezes recusavam-se até, a deixar sair as obras que precisavam de ser levadas para o instituto - não no caso da pintura mural que é in situ que se trabalha - mas um quadro, um retábulo, por exemplo.

Mesmo nos sítios menos religiosos, a Igreja era o local para onde conduziam os entes queridos que morriam e o espaço é estimado.

Muitas vezes, quando fazíamos restauros nas Igrejas e no tempo em que de Norte a Sul havia crianças nas aldeias, elas vinham e nós explicavamos-lhes o que estávamos a fazer, faziam desenhos e faziam muitas perguntas, era um ambiente muito agradável.

Quanto ao Estado está muito mais activo, mas não o suficiente.

E há que pensar, que património não são só os edifícios…que dizer dos arquivos por este país fora?


Consegue destacar alguma peça que a tenha fascinado mais durante a sua carreira?

Apenas como exemplo, vou nomear dois monumentos.

A Igreja do Convento de São Francisco em Leiria*, que esteve muito abandonada, de tal maneira que, quando se iniciou a recuperação, verificou-se que havia uma árvore lá dentro…

Essa Igreja, do Convento de São Francisco, junto ao rio, é de grandes proporções e teve várias intervenções ao longo do tempo.

Os historiadores descobriram que havia uma pintura a fresco na parede fundeira do altar-mor. Quando conseguimos visualizar a pintura no seu todo, percebemos que era um fresco de enorme importância. Está datado do sec XV.

Além disso, no terço superior da nave há uma série de capelas, decoradas também a fresco,

Digo o terço superior, porque o espaço inferior foi ocupado com outras construções ao longo dos séculos.

Também em Meijinhos, uma pequena povoação no concelho de Viseu, a Igreja tem uma pintura quinhentista muito interessante .

De notar que tanto em Leiria, como em Meijinhos, o trabalho foi realizado em equipa, sendo que o restauro de Leiria foi feito por uma empresa privada e o Instituto realizou os estudos iniciais.




Que importância tem a madeira no património artístico português?

Tem imensa! O nosso mobiliário foi, em determinada altura, admirado pelos franceses, por ser em madeira maciça, o que eles não faziam.

A talha em Portugal e no Brasil é de uma riqueza imensa e, se existe pintura a fresco em Portugal, devemo-lo à talha.

Os grandes aparelhos eram praticamente inamovíveis e salvaguardaram as pinturas,quando, nos anos 40 por questões políticas o Estado mandou picar os rebocos das igrajas e deixar a pedra à vista hoje.


Qual é a sua memória mais antiga de marcenaria? Alguma peça de mobiliário que a remeta para infância? A primeira vez que viu trabalhar em madeira/que entrou numa marcenaria…

Lembro-me de um senhor, já de idade, que ia a minha casa, quando os móveis tinham algum problema. Os móveis antigos eram muito grandes e então era lá que ele trabalhava. Parece que o estou a ver, a trabalhar na varanda.


Que imagens e sensações lhe traz a palavra marcenaria? Quando pensa em marcenaria pensa em…?

Nos cheiros da madeira e no cheiro do grude, que era a cola que se usava na altura e que se fazia no momento.

Penso no lápis atrás da orelha. Os marceneiros andavam sempre com um lápis atrás da orelha a passear por todo o lado.



Tem alguma madeira preferida?

Não conheço quase nada de madeiras, mas gosto muito de uma mesa que herdei da minha mãe, em madeira maciça, clara e que foi encerada.


Qual é a sua peça de mobiliário preferida?

Mesas de trabalho. Tenho uma, de que gosto muito. Era da minha mãe que era modista; é muito simples, em madeira encerada, pernas ligeiramente torneadas.


Qual é a peça de mobiliário mais antiga que tem em casa

Uma cama em madeira que pertencia à minha bisavó, que tem mais de 100 anos. É ligeiramente polido e tem um tom esverdeado, que deve ser de uma madeira óptima porque nunca lhe entrou o bicho!


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VEIO n.m.

Designação de uma faixa alongada e relativamente estreita que, na terra, nas rochas ou na madeira, se diferencia pela tonalidade distinta ou pela essência da respetiva substância;

Verbo VIR - Conjugar

(latim venio, -ire, vir, chegar, cair sobre, avançar, atacar, aparecer, nascer, mostrar-se)

verbo transitivo, intransitivo e pronominal

Transportar-se de um lugar para aquele onde estamos ou para aquele onde está a p pessoa a quem falamos; deslocar-se de lá para cá.

Chegar e permanecer num lugar.

As entrevistas VEIO são mais uma forma de fazer prosperar a arte da Marcenaria Portuguesa. Por aqui vão chegar e permanecer os amantes da madeira, da decoração e das artes decorativas, os artesãos e artistas portugueses cujas áreas de actuação são um complemento à Marcenaria e que, de alguma forma, casam bem com as nossas madeiras.

Acompanhem as próximas. Sugiram entrevistados.Também podem vir e ficar.


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