O Tomás VEIO à Marcenaria

Atualizado: Ago 2


Tomás Pires


Artista plástico, Tomás Pires é mestre nesta dança de arestas, veios e relevos.

Os rostos de OJE são obras de arte imponentes. A prova de que a madeira é a matéria mãe, condutora de calor - na física do toque e na química do sentir - capaz de pulsar emoção, apenas com um breve olhar. Com o peso da madeira e carregadas de sentimento, mas de uma leveza natural, cada uma com a sua energia e expressão, das suas mãos saem estas pessoas que não conhece mas com as quais nos revemos. .

Audo-didacta, Tomás começou o seu percurso de artista a par com a sua vida. Já nasceu artista e o seu curriculum tem tantos anos como os de vida. Cresceu no campo, rodeado de madeira e seguiu viagem por vários cenários globais para se enriquecer de experiências e inspirações.

Voltou a Portugal e das tintas e a par com a pintura de murais de street art, OJE, o artista, ganhou a força necessária para trabalhar com a sua paixão. A dos braços e a do coração. Hoje, continua artista, e no início do ano e depois de muitas encomendas, expôs as suas obras ao público pela primeira vez.


O Tomás VEIO à Marcenaria, e pudemos ler as palavras que embrulham todo este talento.

Como entitula a sua arte?

Não tenho uma forma de dar um titulo ao que faço, acho que o meu trabalho vai mudando conforme os anos, gosto de experimentar novos materiais e técnicas e talvez por ai

não o consiga definir como uma coisa ou um conjunto de várias, mas sem dúvida que gira em torno da natureza e o ser-humano, a relação e conexão entre ambos e como isso nos define.

Como começou este amor pela madeira?

Eu cresci no meio rural então a madeira sempre teve presente na minha fase inicial enquanto artista, não aprofundei muito o material nessa altura mas sempre ficou aquele "bichinho" de trabalhar com madeira. Acho que quando comecei a pintar murais foi quando me defini enquanto artista, quando procurei passar uma mensagem com o que pintava, o meu trabalho em madeira veio complementar tudo isso sendo uma técnica que ainda  estou a desenvolver.

Lembra-se da primeira peça em madeira que criou?

A primeira peça em madeira que fiz foi com dois amigos, uma cadeira de canto que fizemos com tábuas re-utilizadas, ainda hoje tenho em minha casa se bem que a nível de conforto não seja a melhor, mas traz-me recordações do início do meu percurso. A partir daí foi uma série de processos  entre pintura a carvão e madeira, acrílico sobre madeira e tentar conjugar alguma harmonia entre os materiais.

E o gosto por criar rostos? Como surgiu?

Sempre gostei muito de observar expressões, sejam humanas ou de animais definem exatamente o que sentem naquele momento e na minha opinião o rosto humano transmite sempre algo mais do que um olhar, talvez um sentimento, uma recordação, uma semelhança com alguém,... leva-nos sempre a tirar algo mais do que apenas observar, é capaz de nos questionar, passar emoções, no fundo mexe com o nosso "eu" de uma forma mais profunda, mais direta.

Como é o processo criativo? De onde vem a inspiração para criar cada peça?

O processo criativo de cada peça começa com a escolha da imagem. Procuro sempre expressões que transmitam um certo equilíbrio com o material utilizado (pinho), mas que ao mesmo tempo interagem com o ambiente que as rodeia, é muito na ideia de explorar a ligação feita entre a expressão captada e a organicidade da madeira. Escolhida a imagem, passo para um molde em papel onde defino cortes e tamanhos das peças. A partir daí é cortar todas as peças de forma a encaixarem no dito "puzzle". Depois de ter as peças cortadas passo para o processo de moldagem em que sugiro formas e texturas com diversas lixas. Depois de finalizado esse processo colo algumas partes na base e começo o longo processo de pintura até a peça estar finalizada. O processo demora cerca de um mês e pouco.

Qual foi o melhor feedback que já recebeu, enquanto artista?

Acho que o melhor feedback possível é sentir que cada peça que crio corresponde e/ou ultrapassa as expectativas do cliente. 

Para si, qual é a definição de sucesso?

Para mim a definição de sucesso é ser reconhecido pelo meu trabalho, poder viver do que gosto de fazer e desafiar-me cada vez mais seja em escala ou técnicas.


Qual é o seu propósito de criação?

A maior parte das vezes que crio é por uma necessidade minha de mandar para fora questões, impulsos, emoções, sentimentos, outras para me desafiar.

Que imagens e sensações lhe traz a palavra madeira?

Quando penso em madeira vai desde as farpas ao cheiro a madeira acabada de cortar, a todo o processo de pegar um pedaço de madeira e poder trabalhar em conjunto com as suas características, mas traz-me sentimentos desde frustração a alegria e muita aprendizagem.


Quando pensa em marcenaria pensa em...?

As oficinas sempre com o cheiro a madeira, algumas com máquinas industriais outras mais manuais, no trabalho do artesão marceneiro, nos detalhes das peças e as variedades de madeira.

Tem alguma madeira preferida?

Maioritariamente só utilizo pinho por ser mais leve e fácil de trabalhar, mas tenho curiosidade de experimentar outros tipos de madeira no futuro.


Qual é a sua peça de mobiliário preferida?

A peça de mobiliário que prefiro é uma mesa/mala de madeira que era do meu avô, penso que utilizavam para pic-nics com os pés em arame, um pouco instável mas já anda comigo há uns bons anos.

Qual foi a maior loucura que já fez por uma peça de arte ou de design e/ou mobiliário?

Confesso que sou mais de reaproveitar do que cometer grandes loucuras, mas talvez o facto de apagar uma pintura que tinha feito num tampo de uma mesa de madeira antiga para voltar a utilizar como mesa (ou uma ideia ainda em mente que talvez se vá concretizar).

Gosta do lado construtivo? Se pudesse ser marceneiro por um mês, que peça construía?

Tenho um certo fascínio por construir coisas, se pudesse seria um barco ou uma canoa mas acho um mês muito apertado para isso.


Qual é a sua peça de sonho? Se ganhasse a lotaria, que peça encomendaria à Marcenaria?

Se me saísse o euromilhões talvez um barco/casa!?

Consegue descrever uma peça de arte perfeita?

Na minha opinião a arte não é para ser perfeita, tem mais valor enquanto nos mostra as nossas fraquezas e imperfeições. Se tiver de descrever a obra de arte perfeita seria o planeta terra.


Quais serão os próximos projectos?

Este ano será mais para trabalhar em algumas técnicas que ando a desenvolver e criar algumas peças com mais detalhe.


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VEIO n.m.

Designação de uma faixa alongada e relativamente estreita que, na terra, nas rochas ou na madeira, se diferencia pela tonalidade distinta ou pela essência da respetiva substância;

Verbo VIR - Conjugar

(latim venio, -ire, vir, chegar, cair sobre, avançar, atacar, aparecer, nascer, mostrar-se)

verbo transitivo, intransitivo e pronominal

Transportar-se de um lugar para aquele onde estamos ou para aquele onde está a p pessoa a quem falamos; deslocar-se de lá para cá.

Chegar e permanecer num lugar.


As entrevistas VEIO são mais uma forma de fazer prosperar a arte da Marcenaria Portuguesa. Por aqui vão chegar e permanecer os amantes da madeira, da decoração e das artes decorativas, os artesãos e artistas portugueses cujas áreas de actuação são um complemento à Marcenaria e que, de alguma forma, casam bem com as nossas madeiras.

Acompanhem as próximas. Sugiram entrevistados.Também podem vir e ficar.