Colecção Luísa - Cómoda Escrivaninha estilo Dona Maria

Atualizado: Ago 25




Não raras vezes somos contactados para projectos de restauro que contemplam a intervenção do recheio completo de uma casa ou de uma colecção familiar. Felizmente, ainda são bastantes os coleccionadores, amantes de madeira, que possuem peças de mobiliário de família, que vão passando de geração em geração. Uma herança que precisa de manutenção, com qualidade técnica e com alguma sensibilidade, respeitando o material e o emocional.


É o caso deste projecto. Vamos chamar-lhe Colecção Luísa, numa homenagem ao nome próprio da cliente. Uma obra de restauro, em vários actos, como uma ópera.


Uma cómoda, um espelho, um candeeiro, várias cadeiras em pau santo e estofo em veludo, outras com braços, 1 canapé de 4 lugares e ainda dois cadeirões. Meses de trabalho na nossa oficina, com várias técnicas diferentes e muitas fotografias que registam a beleza de cada peça e dos variados estilos de mobiliário.


Caríssimo público, aos seus lugares! Vamos dar início ao espetáculo.



A primeira peça desta colecção privada é uma imponente cómoda de estilo português D. Maria, com faixa de madeira de pau-santo em marchetaria e com friso embutido em madeira de bucho. Com 8 gavetas principais em pormenor arredondado, ferragens de latão e escrivaninha de abrir, com apoios de correr em madeira, forrados a feltro de cor verde e 13 gavetinhas interiores.



A primeira fase de intervenção consistiu em levar as peças ao tratamento em expurgo (câmara de gás), para erradicar o inseto xilófago. Este tipo de tratamento garante que o inseto não reaparece durante, pelo menos 20 anos. Após o expurgo, a peça foi desmontada e todas as fissuras foram preenchidas com betume de madeira, utilizando a mesma madeira original. Numa fase seguinte a peça foi totalmente limpa, procedendo-se à retificação do acabamento original, através de uma limpeza do mesmo. Nesta limpeza, procurou renovar-se a parte mais superficial do acabamento, conservando as camadas originais de goma laca. Durante este processo, a folha foi recolada em zonas que assim o exigiam, e estruturalmente a zona das gavetas foi totalmente afinada. Por fim, a peça foi novamente acabada com o mesmo acabamento original (goma-laca), dada de forma tradicional (polimento). Foram também limpas todas as ferragens da peça, de modo a retirar quaisquer vestígios de oxidação





O estilo Dona Maria é, na verdade, uma mescla de estilos, inspirado nos móveis ingleses, no rococó de D José e também nos estilos Luís XV e Luís XVI. Aparece uma mistura com grinaldas de flores, fios de pérola, laços de fita, palmas aquáticas e junquilhos. Nestas peças de mobiliário de características neoclássicas, as formas e as técnicas simplificam-se em relação aos estilos anteriores. As linhas e curvas cedem passo às rectilíneas ou são muito menos pronunciadas quando conservadas. Os braços dos assentos só ligeiramente se curvam enquanto que as pernas são direitas. As madeiras mais usadas são o mogno e a nogueira e também as madeiras mais nobres, no seu tom natural, como o pau-santo e pau-cetim.


Os móveis D. Maria datam de 1780 a 1825. Algumas das características das peças mais valiosas no estilo Maria I são: a presença de cavilhas (pequenos bastões de madeira usados em vez de pregos), inclusivé o encaixilhamento conhecido como “rabo de andorinha” e o brilho, ou alto brilho, obtido através da fricção de álcool com pedra-pomes em pó e friccionado com pedra-pomes em pedra mesmo. O resultado é uma madeira lisa com um brilho intenso e macio.

Depois de bem seca, a madeira recebia uma leve mão de verniz, feito com goma-laca e álcool, para fixar o brilho conseguido com pedra-pomes e, assim, obter um brilho mais intenso, semelhante a um espelho.


E por falar em espelho, no próximo post do nosso diário mostramos o espelho e o candeeiro que entram em cena como um lindo par romântico.





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